RPG, Violência e Educação
Dentre os assuntos polêmicos que envolvem o RPG, com certeza um deles é a violência. Sangue, rituais e mortes muitas vezes fazem parte de uma aventura de RPG, mas não necessariamente causa o repúdio, horror ou aversão que normalmente se espera.
Tenho notado que, quando uso o RPG com alunos, eles têm uma predileção por aventuras que tenham muito combate e sangue. É bem verdade que as características da personalidade do aluno faz com que ele crie um tipo único de personagem. Ainda não fiz um estudo pesquisando com mais profundidade, mas percebi que mesmo sendo únicos, eles criam um personagem para o combate. Desde bárbaros e guerreiros até os diferentes tipos de magos e feiticeiros, em sua grade maioria os alunos os criam para matar, para o combate.
Creio que até merece um estudo, ou até mesmo um ensaio aqui no WRF, comentando sobre essas escolhas. Imagino que seja possível associar os motivos de se escolher um guerreiro ou um conjurador de magias – e que essa associação seja coerente com a vivência do aluno em sala de aula. Mas esse não é o foco hoje, vamos adiante.
Muitas vezes, para proteger seus filhos, os pais os privam de muitas experiências que consideram ruins; como se os envolvessem em uma bolha protetora que só acontece aquilo que faz bem. Violência, sangue e morte são coisas ruins aos olhos dos pais (e da maioria da população) e por isso seus filhos muitas vezes não têm contato com essa faceta do mundo.
Gerard Jones, em seu livro Brincando de Matar Monstros, comenta do tempo todo da necessidade de fantasia do jovem, da criança, para seu desenvolvimento. Embora Jones não seja um educador ou pesquisador da área, é difícil refutar seus argumentos.
Enquanto eu estava na faculdade eu aprendi uma coisa, quando estudava o desenvolvimento infantil: a maldade está nos olhos de quem vê! Creio que isso se aplica nesse caso. Muitas vezes a violência imaginária, no reino da fantasia fere os valores que os adultos (pais) têm ou querem para seus filhos. Um tiroteio imaginário gera, muitas vezes, uma preocupação desnecessária por parte dos pais. Como que se um filho envolvido num tiroteio imaginário vá participar ou promover um tiroteio real quando for mais velho.
Jones tem uma observação forte em relação a isso:
Não estamos ajudando as crianças a aprender a diferença entre a fantasia e a realidade quando permitimos que as fantasias delas provoquem, em nós, reações que seriam mais apropriadas à realidade. Quando uma criança mata alegremente um amiguinho que gosta de ser morto, não deixamos as coisas mais claras para ela ao dizer, cheios de ansiedade, “você não deve atirar nas pessoas!” Em vez disso, deixamos vagos os limites que ela está tentando estabelecer. Ensinamos-lhe que tiroteios de mentirinha fazem com que os adultos se sintam ameaçados na realidade e, portanto suas próprias fantasias devem ser mais perigosas e mais poderosas do que pensavam. (JONES, 2004, p. 61).
Ou seja, na ânsia de bloquear a violência, é possível que essa censura da fantasia acabe por mostrar para as crianças como sua imaginação interfere (ou seria manipula?) as emoções e atitudes de seus pais.
Agressividade, violência, faz parte da vida, faz parte do ser humano. Li em algum lugar uma vez que enquanto essa agressividade ou violência esteja no plano da imaginação ela não tem necessidade de vir para o mundo real; ao passo que se ela não acontecer na fantasia, ela possivelmente acontecerá na realidade.
Não, isso não é uma regra. Toda aquela questão de conviver com a violência pode gerar ações violentas tem fundamento também, mas acho mais coerente o primeiro argumento. Não creio que um simples vídeo-game ou unicamente o RPG pode tornar alguém um mais violento e menos social. Se isso ocorrer, talvez seja porque haja outros fatores além deles atuando como violência no bairro, a educação ou exemplos de pais e irmãos em casa, enfim… outras fontes de violência.
Encerro o ensaio de hoje com outra observação de Jones, sobre a fantasia e o desenvolvimento do jovem:
Para que possam desenvolver uma personalidade que lhes será útil durante toda a vida, os jovens precisam de modelo, orientação, direcionamento, comunicação e limites. Mas também precisam de fantasia, de brincadeira e se deixar levar pelas histórias. É assim que reorganizam seu mundo em formas que possam manipular. É assim que exploram seus próprios sentimentos e emoções, e assumem o controle sobre si. É assim que matam seus monstros. (JONES, 2004, p. 66).
Ou seja, proibir um jovem de fantasiar suas agressividades, censurar práticas que envolvam violência imaginária e irreal e que sejam do consentimento dos jovens, pode gerar mais que um conflito interno nos pais, mais sim, uma etapa do desenvolvimento não resolvida do jovem: ele não matou seus “monstros”!
Uma boa semana e muito sucesso decisivo para todos!
JONES, Gerard. Brincando de Matar Monstros: porque as crianças precisam de fantasia , videogames e violência de faz-de-conta. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2004.



30. jun, 2010


















Muito bacana! Como psicólogo poderias escrever um artigo científico na área psicológica/educacional embasando sobre se o jogo de RPG ou outras fontes (filme, animação, jogo eletrônico, propaganda) criam criminosos ou se pessoas influenciadas por essas ou outras fontes já nasceram com o problema e o gatilho foi disparado, independente da fonte. A partir do artigo, um texto para o blog.
Sugestão e interesse acadêmico!
Estou levantando todos os trabalhos com RPG (dissertações e teses) publicados no Brasil no banco da Capes e ainda não sei se tem algo assim. Ainda não pude ler todos os trabalhos. Já cansei de defender o RPG no achismo, agora é no saber-poder!
Gilson
Gilson • RPG • Educação´s last blog ..Edital Prêmio de Pesquisa em Cultura – Políticas Públicas de Cultura
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É verdade! Se bem que, até onde eu sei, já existem alguns estudos (bons) sobre o assunto!
Como eu disse num outro texto, não tenho a intenção de produzir textos acadêmicos neste espaço. Procuro utilizar o espaço para apontar algumas questões que tive e tenho para despertar a “pulguinha atrás da orelha” de alguém e esse alguém poder buscar a resposta numa pesquisa.
E sobre o achismo, felizmente a visão da população em geral tem mudado. Esse “saber-poder” tem aparecido cada vez mais em pesquisas acadêmicas.
“I have a dream, that one day the roleplayer games will be free of prejudice”.
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Mateus, adorei a sugestão de fonte que você indicou. Vou comprar já. Ótima matéria.
Abraços.
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Opa… fico feliz Guido!!!
Jones não é um cara com uma escrita muito acadêmica, mas tem uma boa argumentação nesse sentido. Vale conferir!
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Olá!
Com o perdão da palavra, mas que postagem do caralho! Adorei cara, parabéns! Nem quero me aprofundar em meu comentário pois sou ignorante com relação a este tema, por isso só tenho que agradecer as colocações feitas sobre o assunto.
Até and Bye…
Tio Lipe “Cavaleiros”´s last blog ..CI Cesta impossível!
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muiiito bom …
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