Começo o texto de hoje, fazendo referência a um famoso ditado popular: “está com a faca e o queijo na mão”. O ditado deixa no ar a conclusão da sentença: agora é só cortar! Após visitar algumas escolas, percebi uma coisa. Não basta querer cortar, é preciso saber cortar o queijo, senão há o risco de se cortar a mão, o dedo, sei lá mais o que.
E qual a relação do RPG na Educação com facas, queijos e cortes? Me explico. Numa das minhas visitas à escolas, como me referi em outro texto, me deparei com uma escola bem simples, porém bem organizada. Me surpreendi quando vi que nessa escola havia um quadro interativo. Confesso que sou leigo nesse assunto; não conhecia ou sabia como funcionava um quadro desse, aliás, conhecia só vendo aquele do Fantástico, o programa dominical. Para quem não conhece, vale dar uma olhada nesse vídeo antes de continuar a leitura (http://www.youtube.com/watch?v=Q23StYh5Zuc).
Pois bem, estava na reunião, e antes que ela começasse e equipe pedagógica se prontificou a demonstrar as possibilidades do quadro. No início eu achei que era uma coisa meio “eu tenho você não tem”, mas depois entendi que era para divulgar mesmo as possibilidades e facilidades de se ter um quadro daquele em uma escola. Sem dúvida nenhuma é uma tecnologia fantástica para se ministrar aulas. Desde a manjada apresentação de slides, que não precisa mais dos cliques no mouse ou no teclado, até o uso do quadro mesmo, como o vídeo ali em cima mostra tão bem.
O que me assustou na verdade (isso mesmo, assustou do verbo assustar) foi o confete jogado na professora que estava demonstrando o quadro pra gente. Como eu disse, o quadro é uma excelente ferramenta para uso educacional, mas na prática, só o comando do mouse que mudou de lugar. Ok, sou leigo, mas pelo pouco que conheço é isso. Você não precisa mais usar o teclado ou mouse. Com o dedo ou a caneta própria na tela você tem os comandos que o mouse teria. Ou seja, qualquer pessoa com o conhecimento básico de informática se sairia bem com o uso do quadro. E onde entre o “assustou”? O susto que eu tomei foi ouvir a professora, com um sorriso nos lábios como se fosse a ganhadora do prêmio Nobel, dizer que ela está tentando ensinar os outros professores a utilizar o quadro, mas eles tem medo. Medo.
Professores não serem os melhores amigos da informática, eu até entendo. Muitos professores da rede pública estão lá há muito tempo e da mesma forma que muitos pais ou avós, se batem até para mandar um e-mail. Não é essa minha questão. O que me deixou preocupado foi o medo que a novidade causou. Os demais professores tinham medo de aprender o que não sabiam. Na hora me veio o RPG na cabeça e minha (ou seria nossa?) luta pela inclusão do RPG como tecnologia educacional. Se o computador, que bem ou mal, está no cotidiano de todos, causa medo e aversão dos professores que desconhecem o manuseio de uma nova forma de usá-lo; imagine o pavor que o RPG pode causar.
Isso não é tudo. Agora eu justifico o nome do texto. Ao perceber que a professora que falava era a única que sabia utilizá-lo, perguntei sobre algum curso ou explicação de uso do aparelho – já que toda a tecnologia fora doada. A resposta dela foi:
- Vieram umas apostilas com conteúdos de todas as disciplinas para aulas utilizando o quadro.
Ou seja, quem doou o quadro, por mais boa vontade e intenção de melhorar a educação que tenha, não pensou que sem saber utilizá-lo ele não mudaria muita coisa. O quadro pelo quadro não serve de nada. O que o torna uma boa ferramenta é o uso dele; e se os professores não sabem usá-lo, qual a sua utilidade?
Fiquei pensando sobre o RPG. Pensando sobre a necessidade de capacitar os professores a utilizá-lo. Fiquei com medo de um dia o RPG ser algo tão visto pela sociedade e escolas como uma ferramenta educacional que ele sofra o mesmo problema que esse quadro interativo sofreu. Tenho medo que os professores recebam os dados, fichas e uma apostila com a receita pronta de como fazer e fiquem engessados nisso. Antes que alguém me critique. minha cisma não é com as apostilas que enviaram para usar o quadro interativo. Acho que elas são sim muito úteis. Minha cisma é com a não capacitação dos professores.
Se fosse o RPG: os professores receberiam as apostilas com as aulas-aventuras, utilizariam muito mal e porcamente (porque não sabem na verdade como funciona o jogo) e acabou. Se houvesse a capacitação os professores teriam como eixo norteador as apostilas, mas adaptariam a aventura conforme sua necessidade – e terminada a apostila, usaria sua criatividade para criar outra aventura se quisesse.
Pensando nisso tudo eu cheguei à seguinte conclusão: para inserir o RPG nas escolas e usufruir de todas as possibilidades que ele oferece, temos muito chão pela frente!
Concordo com o post. Na escola onde trabalho temos o quadro interativo em todas as salas de aula, mas os professores receberam bastante treinamento para utilizá-lo.
Ainda assim, tem professores que o utilizam como se fosse uma simples lousa, enquanto outros exploram os recursos mais fantásticos que ele provê.
Se o RPG fosse enfiado goela abaixo seria assim também. Quem não conhece iria utilizar porcamente, como você disse; mas quem conhece o jogo iria fazer maravilhas.
Por isso eu acho que o RPG deve ser uma atividade extra-curricular, e não algo que faça parte da aula propriamente dita.
.-= o Clérigo´s last blog ..Vídeos- LoTR – Gandalf and Saruman =-.
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Matheus Reply:
outubro 14th, 2010 at 16:16
Opa! Obrigado pela assiduidade de comentário, nobre guerreiro divino!
Fico feliz em saber que não é algo rotineiro essa impressão que tive. Parabéns para escola onde atua, por preparar os professores. Como meu trabalho de capacitação de professores para o uso de RPG na sala de aula ainda não é algo massivo, tenho tido bons resutados. Comprometimento, motivação dos aluos estão entre eles – segundo os professores capacitados. Talvez porque os professores que procuram a capacitação já venham preparados e dispostos à mudanças. Concordo contigo que se um dia os professores forem obrigados a utilizar o RPG, o resultado não seria nada bom. Meu medo é deles quererem usar e não terem noção do que é o jogo!
Entretanto, entendo seu ponto de vista, de ser uma atividade extra-curricular e esse é o ponto que estou investindo agora. Formação de “clubes de RPG” onde os alunos participam no contra-turno e de forma voluntária.
Verifiquei e comparei o desempenho dos alunos nas duas modalidades (sala de aula e “clube de RPG) em minha pesquisa e constatei que, embora o RPG seja uma ferramenta e tanto para a sala de aula, ele é bem mais aproveitado quando feito de forma voluntária.
Pretendo escrever sobre isso em breve!
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o Clérigo Reply:
outubro 17th, 2010 at 17:54
Espero ver mais posts sobre esse assunto Matheus, pois tenho pensado em apresentar um projeto para criar algo como um clube de RPG na escola onde leciono; seria bom ter a perspectiva de quem já faz isso.
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Caralho, Matheus! É uma de minhas recentes interrogações. Meu foco na pesquisa acadêmica não é aplicação do RPG, como já sabes. Teu mestrado e de outros já responderam de forma eficaz várias perguntas.
Mas ter sido convidado por uma escola de aplicação (Governo Federal, UFPA) tem me deixado neurótico e feito pensar muita coisa.
Eu senti o receio/medo dos professores em aplicarem o RPG, mas todos ficaram empolgadíssimos.
Até!
Gilson
.-= Gilson • RPG • Educação´s last blog ..O tema RPG e Educação se espalha por eventos acadêmicos e de RPG =-.
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