Terra Devastada

A noite estava tão densa que nem a luz da lua conseguia romper a névoa que se formava por todo o lugar. O cheiro de comida estragada era de embrulhar o estômago e já anunciava que a busca por mantimentos seria frustrada. De repente o silêncio do ambiente é rompido por uma respiração ofegante vinda das sombras, um zumbi velho, gordo e pútrido se arrastava com dificuldade a fim de conseguir um pedaço de carne fresca. Da minha carne.

Terra Devastada é um RPG narrativo simples e intuitivo, ele preza acima de tudo pelo poder imaginativo dos jogadores. O tema principal sem dúvida é o horror em um mundo apocalíptico. Os personagens são pessoas comuns que são obrigadas a conviver umas com as outras nas piores das situações, enquanto o mundo é devastado por milhões de zumbis. Não é um jogo de combate intenso, mas sim um jogo de atos e conseqüências, de desespero, de desesperança e de como sobreviver dia após dia sem enlouquecer ou virar comida de zumbi.

Este não é um jogo de heróis

Ajustei a mira, segurei firme o rifle e mantive meu dedo de prontidão encostado no gatilho. Tensão. O suor escorreu testa abaixo. Ela estava perto, babando como um cão faminto. Era minha filha caçula. Deturpada. Corrompida. Parte da horda. Hesitei em apertar o gatilho, algo no meu subconsciente me dizia pra não disparar, me dizia que eu não poderia atirar contra minha própria filha. Talvez matá-la ali naquele momento pudesse libertá-la, mas não sabia ao certo se isso me tornaria um herói ou um assassino.

Você é o protagonista, mas isso não significa que deva ser heróico ou que sua existência seja mais importante do que uma boa lata de conservas dentro do prazo de validade. Você não vai ser necessariamente o salvador do mundo – com certeza estará bem longe disso – ou a pessoa admirada que talvez imagine que possa se tornar, provavelmente você não terá chance ou moral de assumir esse estereótipo. O mundo devastado é um lugar perigoso, hediondo e de medo intenso, certamente não é um lugar para heróis, pelo menos não para o tipo de heróis que conhecemos. Você inevitavelmente terá que tomar atitudes ingloriosas se quiser se manter vivo por mais algum tempo. Essas atitudes muitas vezes vão requerer sacrifícios que você nem sempre vai estar dispostos a pagar. Vai quebrar paradigmas, violar seus valores morais, perder sua fé ou corromper qualquer coisa que ainda o caracterize como um humano civilizado. Você vai aprender que toda a ação tem preço, e isso você vai entender da pior forma possível, pois nem sempre vai ser fácil puxar o gatilho e não vai haver uma segunda chance, não vai haver tempo para pensar, calcular ou ser precavido. A cada passo, a cada esquiva, a morte pode estar esperando para dilacerar o seu corpo até que não haja mais nada para ser consumido. Se você vai ser um herói, pelo menos um herói deturpado em relação ao próprio conceito de herói, somente o tempo na terra devastada dirá.

O Cenário

“Não se sabe ao certo como tudo começou ou quando. A origem é um mistério. Tudo que se sabe é que os noticiários falavam sobre uma nova gripe, mais forte e mais contagiosa do que todas as outras. Mas agora sabemos que não era uma gripe, era algo bem pior. Em pouco menos de seis meses a terra foi completamente tomada pelas criaturas. Nossos amigos, parentes e conhecidos convertidos em monstros famintos, em mortos vivos.”

Os zumbis de Terra Devastada são pútridos, aterradores e nauseantes. Como de praxe, o seu único objetivo é consumir a maior quantidade de carne fresca possível. Seriam criaturas invencíveis se não fosse por sua irracionalidade e por seu único ponto fraco (e mortal): o cérebro.

Os personagens precisam apenas sobreviver. Até quando não se sabe, mas enquanto estivem vivos e racionais a luta pela sobrevivência continua. Terra Devastada não é um jogo de combate intenso, diferente disso, é um jogo de atos e conseqüências, de horror e irracionalidade. O maior desafio para um personagem, maior até do que enfrentar turbas de zumbis, talvez seja a simples convivência entre pessoas tão desesperadas quanto ele mesmo.

O Sistema

“O sangue não para de jorrar. Droga, aqueles desgraçados me pegaram! já vi isso acontecer antes, e não vou deixar acontecer comigo. A única cura que conheço tá engatilhada em meu revólver”

O sistema segue um conceito narrativo simples e que deixa os jogadores muito a vontade para customizar seus personagens. Tudo se baseia apenas na criação de características. Não existem listas e nem nada do tipo, toda criação parte da imaginação do jogador. O objetivo do sistema é justamente dar asas e não trilhos.

As características não são quantificadas, isto é, não existe nenhum número ligado elas (na verdade, a matemática é muito suave no sistema). Basta escrever a característica e pronto, o seu personagem é aquilo que escreveu.

A mecânica é simples: Você rola uma determinada quantidade de dados de seis faces (d6) e tenta ter como resultado a maior quantidade de números pares possível. Cada número par equivale a 1 ponto de desempenho. Dependendo do que se pretende fazer, o Narrador (Game Master) estabelece uma meta de desempenho a ser atingida que pode variar de 1 a 6. Você declara o seu objetivo, as conseqüências desse objetivo, e pronto. Se atingir a meta o seu objetivo é alcançado e as conseqüências disso vão acontecer assim como você descreveu.
Os dados rolados são contados da seguinte forma: +1d6 para cada característica relevante e vantajosa para a ação e -1d6 para cada característica relevante e desvantajosa para a ação. Simples assim.

Além disso há uma medida de horror, representando toda a experiência desumana e traumas psicológicos do personagem. Quanto mais o personagem se envolver em cenas de horror, mais a sua pontuação de horror sobe e mais suscetível as mazelas de uma mente perturbada ele está.

Também existe uma medida de convicção, representando o poder motivacional do personagem. Em poucas palavras, a convicção é a fé do personagem em alcançar um determinado objetivo. Mecanicamente, ele gasta pontos de convicção para ganhar pontos extras de desempenho. Mas para isso, é necessário gastar uma quantidade de pontos de convicção equivalente ao horror atual, ele literalmente tem que impor sua vontade ao medo que está sentido.

Mais informações em: www.terradevastada.blogspot.com

Estou quase sem palavras, apesar de ser suspeito quando falamos sobre Zumbis, li o resumo de regras do sistema e achei fantástico. Simples e objetivo, além de ser um bom chamariz para jogadores iniciantes e, acima de tudo, ser um sistema totalmente nacional. Mas vamos ao que nos importa.

A introdução já te coloca no clima de jogo. É uma espécie de diário em uma cidade distante no meio da floresta amazônica, obviamente o último lugar onde se poderia descobrir que o mundo foi tomado por uma infecção que transforma a todos em mortos-vivos sedentos por carne.

Após essa bela entrada surge a parte de conceitos, onde nos é detalhado toda a ideia do sistema e a dinâmica que ele busca utilizar, basicamente nos explica todo o ideal em torno dele.

Sei que comparações nunca agradam a todos, mas como eu conheço apenas dois sistemas nativos voltados ao mundo de Zumbis, acabou sendo inevitavel. Mestro o “All Flesh Must Be Eaten” a algum tempo já e ele nos permite fazer desde a história de Zumbis clássicas, dignos de George Romero, e histórias mais hardcore, lembrando muito os primeiros Resident Evil. Já o “Terra Devastada” busca uma dinâmica mais realista, seu objetivo não é uma super história de heróis (como o próprio blog deles nos fala.), mas sim de sobrevivência de pessoas comuns, podendo ser um advogado, um engenheiro, a tia da limpeza, uma professora, um adolescente ou um bebado, as opções são muitas e o mestre pode, inclusive, criar facilmente a ficha dos próprios players, usando apenas suas caracteristicas, já que não existem números para quantificar força, destreza ou velocidade, por exemplo, existe apenas aquilo que você fazia antes do apocalipse Zumbi tomar conta do mundo.

Para finalizar, acredito que é um sistema que tem tudo para cair no gosto dos jogadores. Pois é diferente do que já vimos, pois mesmo adaptando Gurps ou outro sistema a essa temática, dificilmente teremos o realismo que o “Terra Devastada” nos apresenta.

Prometo trazer um release da primeira mesa de teste que vou fazer antes do World RPG Fest 2011 para passar minhas impressões sobre as regras e o sistema em si.