
Entre as várias dificuldades que enfrentei e enfrento ao iniciar o RPG com alunos de Ensino Médio, está a diferenciação de interpretar o personagem e jogar vídeo-game. Entretanto, essa mesma noção “videogamística” de RPG que os MMORPG dão aos alunos, é que faz com que os alunos tenham interesse em jogar.
Creio que o vilão da história, se é que ele existe, é a tecnologia. Como disse um amigo meu: a tecnologia aproxima cada vez mais as pessoas e afasta cada vez mais. Computadores, celulares e os novos arsenais tecnológicos permitem romper barreiras de tempo e espaço, mas podem fazer perder a capacidade de estabelecer relações afetivas duradouras. Nunca se esteve tão sozinho mesmo em contato com tanta gente.
As pessoas estão se falando cada vez mais, por meios de recursos tecnológicos como celulares e internet. Isso poderia ser bom, se não estivesse substituindo o relacionamento “olho-no-olho”. Não que esses recursos sejam os vilões, mas o uso excessivo e indiscriminado pode gerar más conseqüências. “O excesso de nada pode muito bem fazer um homem sentir-se mal” (HARGREAVES, 2004, p. 57). É possível afirmar que algumas pessoas dessa geração têm contato em apenas um dia com mais pessoas do que seus avós tiveram em um ano – talvez a vida toda. Entretanto, a qualidade da comunicação a confiança e as amizades serão as mesmas vivenciadas e tão profundas quanto as vivenciadas por seus avós?
Mas não dá para ficarmos reclamando. A tecnologia está aí e temos que saber conviver com ela. De alguma forma os desenvolvedores de jogos se apropriaram de alguns conceitos do RPG e colocaram em jogos que ficaram conhecidos por MMORPG (Massive Multiplayer Online Role Playing Game). Neles, você cria seu personagem como você achar melhor (classes, raças, atributos, etc) e faz o que considera mais adequado para o momento (aceita missão, se integra ou não a uma guilda de jogadores, etc). Creio que, por trabalhar com o imaginário, fantasia ou até mesmo aspectos arquetípicos dos jogadores, os MMORPG explodiram em sucesso em todo mundo. Parece que a cada dia que passa temos um novo MMORPG a ser jogado. A facilidade de acesso e divulgação massiva e a possibilidade de encontrar pessoas do mundo todo fazem com que esses games sejam muito conhecidos.
Quando me apresento numa escola e digo que os alunos poderão jogar RPG naquele espaço, os alunos se interessam na hora. Mas rapidamente vem a pergunta:
- Iremos todos no laboratório de informática? Tem computador para todos?
E então eu explico que o RPG que proponho é o RPG “old school”, jogado numa mesa, com papel e dados. Todos se interessam, afinal, como jogar WOW (World of Warcraft) com papel?
Os primeiros encontros são sempre com muitos alunos. Todos querendo entender do que se trata. À medida que as sessões vão seguindo, alguns desistem no meio do caminho.
Ninguém nunca disse nada, mas imagino que desistem porque lidar com gente de verdade é um pouco complicado para eles; jogar na frente do computador é mais fácil, tem menos dilemas éticos e morais e serem resolvidos, e os que existem, não precisam ser resolvidos olhando no rosto da pessoa.
Para os que permanecem, encontram uma enorme dificuldade em interpretar o personagem. Tá, ninguém é ator, mas vivenciar o jogo como se fosse o personagem não é algo muito complicado – aliás, acho que é sim. Os “ensinamentos dos jogos estilo vídeo-game” dizem que primeiro você pega uma missão, você completa ele e depois pega outra. É difícil para os alunos aprenderem que no RPG eles completarão a missão se quiserem, e que é possível dar continuidade no jogo assim mesmo. Por exemplo: um grupo de alunos tinha a missão de encontrar e devolver um dragão bebê a um grupo de kobolds (sim, kobolds). Eles encontraram o pequeno dragão e assim que puderam o devolveu. Assim que o devolveram perguntaram: quanto ganhamos de experiência (XP)? Que item os kobolds tem para nos entregar? (veja www.rpgsesisanjo.blogspot.com/2010/03/em-busca-do-fruto-da-vida-parte-4.html)
Percebam a “escola videogamística”. Sendo que, se quisessem poderiam ter pego o filhote de dragão para eles e ter deixado os kobolds para trás. Ou ainda, o mesmo grupo, encontrou o famoso “baralho das ilusões” e parte do grupo tinha ordens para levar o baralho para um mago, e a outra parte para levar até outro mago. O único jogador que pensou em ficar com o baralho foi jurado de morte pelo grupo; afinal, onde já se viu “não completar uma quest”? (veja http://rpgsesisanjo.blogspot.com/2010/08/batalha-arcana-01-o-inicio.html)
Escrevo esse texto com o intuito de alertar os professores que usam ou usarão o RPG em suas aulas. Comparar o RPG com jogos de computador e vídeo-game é uma excelente solução para atrair jogadores. Sim, eles aparecem em bandos. Entretanto, se o desenrolar do jogo for estilo vídeo-game diversão fica comprometida. Não que os alunos não aproveitam o jogo, mas a diversão fica restrita. No RPG os alunos devem ver a possibilidade de fazer o que quiserem, até rirem dos erros. Devem perceber que o melhor personagem não é necessariamente aquele com mais atributos ou melhores itens, mas sim aquele que é melhor interpretado. Basta perguntar ao Bardo Cego, sobre o Flautista sem pernas ou ainda o Anão que acha que é elfo! (veja http://dragoesdosolnegro.blogspot.com/2009/10/yashin-back-ground.html)
Olhando com os olhos do MMORPG, são personagens fadados ao fracasso, mas na mesa de jogo, são os que rendem as melhores gargalhadas. Dessa forma, depois de começar lotado, graças à divulgação e esvaziar depois de um tempo, o grupo de RPG sofre outra transformação: alunos começam a se interessar e procurar o RPG, mas dessa vez porque querem interpretar! Quando isso acontecer, é sinal que bons frutos virão!
Excelente esse post. Eu estou ensinando uma molecada a jogar RPG e tenho esse mesmo sentimento: eles acham que estão no video game, querem novos poderes, completar quests e subir níveis.
A interpretação ainda fica bem de lado, mas espero que eles aprendam e peguem o gosto por ela logo.
Como sugestão, Matheus, poderia fazer um post explicando como é o trabalho que você realiza? Acho que seria legal abordar os aspectos burocráticos, afinal imagino que deve ter reuniões com diretores e professores, planos e coisa e tal.
Valeu!
.-= o Clérigo´s last blog ..Anúncio- Pesquisa sobre traduções de RPG =-.
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Opa muito bom Matheus.
É como eu sempre digo isso é RPG e não video Game! ahuahauhauah
Já aproveito pro jaba
http://dragoesdosolnegro.blogspot.com/2010/10/aniversario-dos-dragoes-do-sol-negro.html
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Deve ter sido uma experiencia recompensadora analisar a reação dos alunos quando perceberam que tinham liberdade para fugir do “roteiro”. Essa é uma das coisas mais geniais e importante do RPG: a capacidade de testar e quebrar paradigmas.
Grande matéria.
Abraços
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Com certeza foi e é muito bom quando os alunos percebem que no RPG são as decisões dos personagens ue fazem o jogo, e não as decisões do programador do software! rs
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