O texto de hoje se propõe a refletir sobre utilidade e brincadeira. O jogo de interpretação de papéis é algo útil ou uma brincadeira? E como isso implica na educação?

magino não ser capaz de responder essas perguntas. Na verdade elas brotaram em minha mente assim que eu relia alguns textos de Rubem Alves. O texto cita Santo Agostinho e a maneira que ele dividiu as coisas existentes: Uti e frui. São palavras em latim que significam respectivamente “útil, utilizável, utensílio” e “fruir, usufruir, desfrutar, amar”.

Rubem Alves continua seu texto fazendo as mesmas considerações, só que de sua maneira: na vida as coisas se dividem em duas caixas, a de ferramentas e a de brinquedos.

A ordem do “uti” é o lugar do poder. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do “frui” é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para serem usadas, mas para serem gozadas. Rubem Alves

A partir dessa leitura, gosto de pensar que as pessoas só aprendem graças a essas duas caixas. Aprendemos o que nos será útil na vida, que vemos aplicabilidade no cotidiano ou na vida profissional ou aprendemos aquilo que nos dá prazer, aquilo que nos traz alegria.

Por menos que gostemos, aprendemos física para entender um pouco mais a eletricidade de nossas casas, aprendemos matemática e português pois estão em tudo que fazemos. Por outro lado, sem entender muito bem os aspectos teóricos educacionais, aprendemos a construir pipas, memorizamos N palavras para ser o mais rápido no “STOP”, desenvolvemos técnicas para virar mais figurinhas no “bafo”… enfim, sem que ninguém nos ensine, aprendemos e não esquecemos – porque nos deu/dá prazer e alegria.

Como mencionei em textos anteriores, a escola tradicional peca nos dois sentidos: muitas vezes não ensina algo que faça sentido no cotidiano dos alunos e o que ensina não é algo que dê alegria. Não acho que seja função da escola dar alegria e prazer aos alunos, mas em contra partida, por que não? Por que não ensinar de forma agradável?

Concordo que alguns conteúdos podem não ser os mais indicados para se trabalhar com o RPG. Talvez a utilidade e aplicabilidade deles sejam suficientes em si mesmos, fazendo com que o aluno aprenda (ou se esforce em aprender) independente do professor ou maneira usada para dar a aula.

Concordo também que alguns conteúdos têm sua utilidade reduzida aos exames do vestibular. Muitas vezes nem mesmo o professor sabe os motivos pelos quais os alunos devem aprender alguns conteúdos. Ou seja, se o aprendizado não vai acontecer pela “caixa de ferramentas” que ele aconteça pela “caixa de brinquedos”. Por que não utilizar o RPG para tornar um conteúdo mais envolvente? Por que não colocar os conteúdos que não se encaixam muito bem na “caixa de ferramentas” dentro da “caixa de brinquedos” e fazer com que o aprendizado seja melhor?

Retornando ao Rubem Alves, em seu texto ele afirma que as coisas úteis, que estão na caixa de ferramentas, são os meios de vida, coisas indispensáveis par vivermos. E utilizando o exemplo do autor, temos a saúde. Precisamos ter saúde. Saúde está na caixa das ferramentas – é útil. Entretanto, de que adianta saúde sem alegria? Sem ter com quem viver? A alegria, esta está na caixa dos brinquedos. Temos que ter em mente que o brincar não é um meio para chegar a algum objetivo ou lugar, ou como disse Rubem Alves, “armar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez ou bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto, ver caleidoscópio: tudo isso não leva a nada. Essas coisas não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou”.

Sendo assim me pergunto e desafio vocês a pensarem: o RPG ao ser aplicado na educação é uma ferramenta ou um brinquedo?

Sobre isso falarei no Dia D RPG em Macapá no dia 11 de setembro. Para quem não puder comparecer, no texto do dia 16 comentarei sobre o evento e sobre esse questionamento.

Até lá, muito sucesso decisivo a todos!