Por Filipêra (@VozdoAlem) – do Nerds Somos Nozes

O que falar de uma das maiores obras de quadrinhos da história mais de 20 anos depois dela ter mudado a forma como as HQs são vistas? Falar de Sandman é tão difícil quanto falar de Watchmen. Ou até mais! Não só pelas duas séries serem pilares da Nona Arte, mas por serem aquele tipo de unanimidade a qual todo o mundo decide comentar. O Rei do Sonhar já foi tema de Dissertações de Mestrado, de inúmeros livros, e de guias dissecando suas inúmeras referências. Uma busca por “Sandman” no Google gera cerca de 16.100.000 resultados. Por outro lado, é uma obra de arte muito maior que o sucesso que alcançou – ao contrário do Superman, que é o herói mais conhecido das HQs, mas tem histórias absurdamente patéticas, em sua maioria. É cheio de momentos intensos, possui uma narrativa fluída, e até um clima de terror e mistério pulsante, o que não à toa, a tornou um dos primórdios da criação do melhor selo de quadrinhos da história: a Vertigo. Além disso, alçou Neil Gaiman, um iniciante no mundo dos quadrinhos, ao status de gênio absoluto, mesmo que, para mim, ele nunca tenha alcançado novamente a qualidade suprema de sua obra máxima. Sandman também é a prova que, nos quadrinhos, esse lance de remake obrigatoriamente ser ruim é uma falácia. Gaiman pegou o conceito anterior do personagem Sandman - um detetive que joga areia nos bandidos – e o transformou de tal maneira, que o original desapareceria para sempre… e foi posteriormente homenageado por Neil, numa história em que os dois Sandmans se encontram. Fora isso tudo, Sandman é ainda o ponto de virada fundamental na transformação dos quadrinhos como uma arte vanguardista e portadora de gente multitalentosa, se aproximando cada vez mais da literatura.
O contexto histórico em que Sandman nasceu também era bastante favorável. A indústria de quadrinhos americana estava num daqueles períodos de crise criativa aguda, mesmo com vendas ainda altas. A solução foi esquecer desavenças passadas, dar um pulo no Reino Unido e levar pros EUA talentos britânicos para escreverem quadrinhos americanos. Graças a esse esforço da DC Comics, autores geniais como Alan Moore, Grant Morrison, Warren Ellis e Garth Ennis puderam criar histórias fundamentais para a Arte. Gaiman foi um deles, um dos que moldaram as chamadas HQs Adultas, com conteúdo sexual, violento, e muito mais sofisticado narrativamente. Após Sandman, muita gente que nem sabia que gostava de quadrinhos, virou fã incondicional de tramas narradas com desenhos e balões, além de ter sido uma das obras que finalmente ajudaram a tirar o mercado americano de quadrinhos de uma espécie de gueto sub-evoluído e periférico.
Mas o que faz de Sandman uma obra tão boa? Num sentido pessoal, às vezes é difícil expressar com palavras quando se encontra algo perfeito. Talvez o problema de se resenhar uma obra de arte – e ainda mandar uma nota 10 no final – seja o fato de diferentes pessoas terem diferentes perspectivas, e se aterem a pontos diferentes de qualidade. Tem também a questão da expectativa e do contexto. Um leitor que está começando a ler quadrinhos adultos agora, e iniciar a leitura de Sandman já tendo lido um milhar de comentários de gente se esforçando pra falar como a série é superlativa, pode se deparar com uma decepção – mesmo que Eu ache extremamente improvável. Os motivos são vários, mas o mais importante passa pelo fato de que muitos dos elementos pioneiros que tornam a obra tão sofisticada e intrigante já foram extensamente usados por outros quadrinhos, às vezes de forma bem aproveitada, às vezes diluída, e isso mata parte do impacto que ela com certeza causaria. Outro motivo é a invasão dos mangás no Ocidente – em parte, por culpa das próprias mega editoras americanas. O ritmo acelerado, personagens com pouco aprofundamento emocional, e a leitura rápida, mais visual que textual de um grande número de mangás, com certeza contrasta de forma dramaticamente inversa com o tom solene, por vezes amargo, de Sandman. É uma linguagem à moda antiga, carregada de referências e que simplesmente fez o sucesso da Vertigo. Cada quadro é importante e exige atenção para ser digerido, e em tempos de internet, com leitores hiperativos e com capacidade de assimilação cada vez mais baixa, uma absorção total de uma obra tão grandiosa e ambiciosa é diminuto. Gerações diferentes, obras diferentes, mas é difícil ver uma série hoje – inclusive as da Vertigo, como Fábulas, que tem elementos parecidos – que consiga alcançar o patamar de Sandman. Na época, a concorrência por qualidade era tão forte, que era difícil para qualquer estabelecer que obra era melhor: Monstro do Pântano, de Moore; Sandman, ou Homem-Animal, de Morrison.
Mas, apesar do mundo ter dado mais de 20 voltas ao redor do Sol desde que Sandman #1 pousou nas bancas americanas, a obra envelheceu bem, a qualidade dela permaneceu intacta, e devido a qualidade das obras atuais, pode-se dizer que está ainda maior. É difícil até contar sobre o que é a história, já que Gaiman não se satisfez em criar uma trama, e moldou um universo só dele dentro do bagunçado Universo DC (naquela época, a Vertigo ainda não tinha sido efetivamente criada, de forma que as tramas se passavam dentro do mal organizado UDC). Em 1916, um grupo de magistas ingleses desenvolve um ritual para prender a Morte, e assumir o poder dela. O ritual é executado em junho daquele ano, sob a direção de Roderick Burgess, o Magus. O procedimento dá certo, mas não é a Morte que é capturada, mas um ser tão poderoso quanto ela. Os efeitos do aprisionamento logo são sentidos. Muitos estão tendo longas horas de sono, recheadas de pesadelos, entre outras disfunções do sono. O ser capturado é Sonho, Morpheus, o Sandman… o poderoso Mestre do Reino do Sonhar. Seu cativeiro dura 72 anos, o filho de Magus tenta, em vão, negociar alguma coisa vantajosa com ele nesse tempo, mas acaba por libertá-lo, após, da forma mais besta possível, romper o círculo mágico que o prendia. Morpheus está fraco, cansado, e tem pela frente a difícil missão de ajeitar as coisas no seu reino, agora despedaçado e bagunçado.
É o início de uma jornada de Destruição e Renascimento. Aos poucos conhecemos os elementos do universo de Sandman, que mistura mitologia judaica, cristã, nórdica e grega, somadas a referências pop das mais inteligentes; tudo da forma mais coesa possível. Morpheus é integrante de uma família de sete irmãos, os chamados Perpétuos, acima de humanos e deuses. Eles representam os aspectos mais fortes dos seres humanos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (em inglês, todos começam com a letra D). Cada um deles tem o seu reino, de onde governam, e a dinâmica de existência de cada Perpétuo – ou Os Sem-Fim – obedece a psicologia jungiana de Arquétipos Universais (ou das entidades da Magick), onde a força de um desses seres superiores depende da extensão dos seus seguidores, ou seja. emana de uma certa energia mental de cada um. Quanto menos ganância e luxúria existirem no mundo, menos poder terá Desejo, por exemplo. Seguindo essa lógica, e entrando num terreno especulativo, Destino, Morte e Sonho seriam os três mais poderosos da família, pois são a personalização dos três aspectos mais intrínsecos da humanidade.
A missão de reconstrução do Sonhar – o Reino de Morpheus – ocupa apenas o primeiro arco da saga de Sandman, Prelúdios e Noturnos. É brilhante, mas serve mesmo como porta de entrada para um novo universo, já que Gaiman atingiria a excelência de verdade nos arcos seguintes. O principal objetivo de Morpheus nesse princípio é recuperar suas três ferramentas de poder: a algibeira que contém sua areia, um rubi, e o seu elmo, que o permite viajar tranquilamente para qualquer lugar. Enquanto busca esses três itens fundamentais, Sonho cruza com personagens importantes, inclusive para o futuro da série: John Constantine – ele mesmo, o mago mais foda dos quadrinhos -, a Liga da Justiça – que na época passava por uma fase sofrível e recheada de humor barato, graças a Keith Giffen, e aqui vislumbrou dias mais sérios -, o Diabo em seu próprio antro infernal, e o grande antagonista desse arco, o Dr. Destino (Doctor Destiny, no original. Não confundir com Dr. Doom, vilão da Marvel, que também é chamado de Dr. Destino), que perverte os sonhos das pessoas.
Os diálogos e duelos verbais são outros dos pontos altos da série. Os quadrinhos, na época, viviam uma crise que desembocaria na criação da infame Image Comics, por um bando de desenhistas que se achavam mais importantes que escritores e editores (mas a Imagem trouxe inúmeros benefícios para a indústria de quadrinhos, principalmente no tocante a direitos de personagens, mas isso é assunto pra outro texto), e por esse motivo, existia uma escassez de bons diálogos, sendo o principal objetivo uma narrativa rápida. E a Vertigo é como uma iniciativa completamente contrária a essa Crise. Os roteiros eram (e são) os mais sofisticados e impactantes possíveis, e ironicamente, os desenhos mantém um certo charme, mas geralmente ficam muito aquém da narrativa de um Frank Quitely, por exemplo. Em Sandman, existe um setor da arte realmente digno de nota – e de um post a parte: as capas. E o nome por trás das célebres capas de da série é Dave McKean, que na época fazia sua estreia no mundo dos quadrinhos. Ele é um artista plástico com um estilo único, misturando colagens e referências de todos os estilos. Pelas capas, McKean já mostrava que o terror era o principal elemento de Sandman em seus primórdios.
Sim… terror. Duvida? Leia a história 24 Horas, do arco Prelúdios e Noturnos (essa primeira edição Absolute tem três arcos: além do Prelúdios, A Casa de Bonecas e Terra dos Sonhos) e confirme uma mistura sinistra de terror com uma narrativa musical jamais vista, tudo fruto de um dia de torturas de um demônio que possui o rubi de Morpheus. A história é pesada e seria um dos precedentes de um dos arcos mais densos já vistos nos quadrinhos mainstream: A Casa de Bonecas. Se Prelúdios já foi ótimo, A Casa foi o primeiro momento em que a série teve momentos perfeitos. Um deles é a história Homens de Boa Fortuna, que funciona independe do restante do arco – assim como muitas tramas da série. Nela conhecemos Robert Gadling, um viciado em viver que faz um acordo com Morpheus em 1389: ele jamais morrerá, a menos que queira. A cada 100 anos os dois se encontram numa taverna, para saberem como estão. O passar dos séculos na visão de Robert é uma sacada de Gaiman digna de aplausos, bem como as mazelas pelas quais ele passa. Mas, A Casa das Bonecas reserva muito mais. O centro da trama é focado em Rose Walker, que se mostra um vórtice que une de forma perigosa o mundo dos Sonhos com o mundo Real. Paralelo a isso, Morpheus precisa recapturar quatro entidades que fugiram de seus domínios: Brute, Glob, o Coríntio e Fiddler’s Green. De todos esses coadjuvantes, o Coríntio é com certeza o melhor. Na história praticamente dele, Colecionadores, vemos um pouco mais da genialidade de Gaiman. Nessa trama tá rolando uma conferência de serial killers, e descobrimos que a fuga do Coríntio foi o causador desse “fenômeno” psiquiátrico chamado assassinos seriais psicopatas. O Coríntio é um ser cruel se estiver sem rédeas, e sua própria concepção visual é interessante, com bocas cheias de dentes afiados no lugar de olhos. O próximo arco – Terra dos Sonhos – é um pouco mais simples. Na verdade nem é um arco, sendo “apenas” quatro histórias agrupadas, sem qualquer correlação entre si. Na mais genial, vemos uma releitura de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare – recomendo a leitura do original antes. Na verdade, creio que Um Sonho de Mil Gatos seja tão ou ainda mais genial que a anterior. É uma história de terror megalomaníaca… com gatos.
Sandman é isso! Uma das obras de arte mais importantes da história. Uma mostra de como os quadrinhos – mesmo os mais mainstream e populares – têm tanto a dizer e são os mais vanguardistas possíveis, às vezes tão a frente do seu tempo. É também uma mostra de como o Universo criado por Neil Gaiman foi raras vezes igualado, tanto em grandiosidade quanto em qualidade. É também uma excelente trama de fantasia, amizade, mitologia, terror e ação, densa como nenhuma outra hoje em dia. Compre, peça emprestado, baixe, alugue… sei lá, mas pare tudo que estiver fazendo e leia Sandman.
Tá ai as histórias de sandman sempre forammuito boas, mas os desenhos, nunca foi o forte da coisa, acho muito ruim, muito mesmo.
Abraços e Sobreviva!
Dragões do Sol Negro
http://www.dragoesdosolnegro.blogspot.com
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V Reply:
maio 30th, 2010 at 16:16
Discordo de você, os desenhos em geral podem não ser obras primas, mas estão bem longe de serem ruins. Você deve levar em consideração também que as técnicas de colorização da época era diferente da de hoje, e isso, para que está acostumado à colorizações mais modernas, pode parecer que a arte é mal feita.
Bem, como eu disse, a maior parte dos desenhos podem não ser excelentes, mas vale destacar dois nomes que estão entre os melhores desenhistas que já vi em quadrinhos. São eles: Michael Zulli e Charles Veiss. Mas mesmo assim acho que os demais desenhistas de Sandman também fizeram um grande trabalho.
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Arte ruim? Realmente, 10 ela não é. Mas sinceramente, eu acho que combina MTO com o clima da série esse lance “mal feito” que existe às vezes,’dá um clima por vezes de irrealidade que combina valendo…
.-= Rob Lima´s last blog ..robpurpura: @lucianalenoir valeu pela citacao do blog! xD =-.
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Sandman é fantástico. E realmente acho que o Neil Gaiman nunca chegou no mesmo patamar, em nenhuma de suas outras obras. Não que não sejam boas, são ótimas. Mas é aquela coisa: cada autor tem sua obra-prima e não raras vezes estão entre as primeiras do autor.
Quanto à arte, realmente, sempre achei fraca. Melhor: Irregular. Oscilava entre artistas ótimos (a edição ilustrada pelo Zulli é lindíssima), com artistas bem medianos. A parte que mais me incomodou foi Entes Queridos: uma nrarattiva incrível e um desenho fraquíssimo.
Acho que outro ponto que contribuía pra se achar a arte ruim eram as capas. Com capas tão incríveis, sempre batia uma certa decepção ao se olhar o interior. Digo isso pq essa sensação não existe em Asilo Arkham, que é toda feita pelo Dave McKean
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Concordo com o Panthro, em resposta ao V cito aqui alguns outros quadrinhos de mesma época ou anteriores com arte muito, muito superior, Lodos War (e olha que não sou fan de manga), O Asilo Arkham citado acima é realmente uma obra de arte, A série Malvels, Todos os do Todd Mc Farlayne (história ruim mas ilustração), Existem vários muito bons, exageradamente melhores que Sandman. Poderia passar aqui uma lista de uns trezentos melhores, um que não posso esquecer é as histórias dentro da revista Heavy Metal.
Mas essa é a minha opinião.
Abraços e Sobreviva!
Dragões do Sol Negro
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