Uma vez, quando ainda estava na escola, um guri chegou com um livro. Na capa havia um cavaleiro disputando uma justa (duelo medieval disputado em torneios com lanças). O professor de história, curioso como eu, se aproximou pra saber o que era. O menino nos explicou que se tratava de um sistema de jogo onde você podia fazer personagens e interpretá-los. Tudo se passava na Idade Média. Depois, mandou o professor fazer uma concha com as mãos e despejou um monte de dados coloridos que eu nunca tinha visto. Fiquei muito impressionado. O jogo era o RPG e ali nasceu minha paixão pelo hobby. O sistema? O tão falado, mas pouco conhecido, Pendragon.

O RPG Pendragon foi lançado pela primeira vez em 1985. Escrito por Greg Stafford, o sistema já está na versão 5.1, lançada em 2010 pela Nocturnal Media. De ambientação medieval, o jogo abrange as lendas Arthurianas e compreende uma época que vai desde o ano 485 d.C, dez anos depois da queda do Império Romano do Ocidente, e vai até a grande batalha de Camlann, em que o Rei Arthur trava o épico duelo final contra Mordred, em 565 d. C.

O cenário é a área que abrange hoje a Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales. Compreende a ilha, conhecida como Britânia; a terra dos Francos, o continente próximo do outro lado do canal da Mancha; a Germânia, terra dos temíveis invasores saxões. Esse povo bárbaro será o maior inimigo dos personagens do jogo, pois estarão sempre tentando invadir e destruir a ilha em busca de terras, saques e escravos.

O livro aconselha que se façam personagens nativos de Logres. O Reino é de Uther Pendragon, filho do Imperador Constantino que veio em nome de Roma junto com o seu irmão Aurelius Ambrosius expulsar os saxões que invadiam a ilha. Aurelius se tornou o rei, mas morreu envenenado pelo inimigo. Seu irmão Uther assumiu o trono cinco anos antes dos personagens terem idade para se sagrarem cavaleiros. Posteriormente Uther terá um filho, Arthur Pendragon. Outro fato interessante é a eterna briga no jogo entre os cristãos influenciados pela Igreja Romana, a chamada nova religião, e a antiga, representada pelos Druidas de Avalon. Então, as duas culturas, Celta e Romana, têm influência direta no jogo, o que tornam os conflitos bastante interessantes.

O objetivo proposto pelo sistema é a formação de dinastias. Na primavera e no verão daquela época os exércitos e cavaleiros saíam em campanhas militares. Já no inverno, tudo ficava congelado e tornava as viagens impossíveis, por isso os nobres se restringiam a ficar em seus feudos. Em termos de jogo, significa que a cada uma ou até três seções representam um ano na história. A cada ano que se encerra, joga-se nos dados a fase do inverno, onde você rola quantas libras as suas terras renderam, casamentos, nascimentos de filhos, acontecimentos com familiares, etc. É quando os jogadores podem evoluir seus personagens em termos de pontos em suas habilidades e atributos. É permitido jogar com personagens que comecem bem novos, como pajens, que aos doze anos tornam-se escudeiros, até que finalmente sagrem-se cavaleiros aos dezoito. Se o seu personagem não morrer durante as aventuras, com trinta e quatro anos os atributos começam a se degradar até que ele deva ser aposentado e o seu filho tome o seu lugar.

Para nós, que estamos acostumados com Dungeons & Dragons, o sistema Pendragon é estranho à primeira vista porque não possui classes, somente cavaleiros. Mas, com a ficha do personagem, permite uma série de individualizações da personalidade e é possível criar cavaleiros com características únicas. Por isso, escrever um background é essencial para que os personagens tenham profundidade e fiquem interessantes. São as Personality Traits onde uma característica sempre é oposta a outra. Exemplo: Misericordioso X Cruel, Valoroso X Covarde, Modesto X Orgulhoso, etc. A crença religiosa, cristã ou pagã, afeta diretamente os pontos de cada Personality Traits.

As Passions também são interessantes. A lealdade, família, honra e amor são medidos por pontos e postos à prova. Por exemplo: o que é mais importante? A lealdade ao rei ou o amor para com a sua família? Os Traits e Passions em algumas ocasiões podem ser um guia para a interpretação ou serem rolados nos dados. Também para a construção do primeiro personagem acompanha uma tabela para determinar quais foram os feitos realizados por seu pai, as batalhas que lutou, os atos heróicos ao lado do rei, quantos anos viveu, etc. Isso ajuda muito os jogadores e mestres no desenvolvimento do background e em termos de jogo reflete na reputação de seu personagem, chamada de glória pelo sistema.

O sistema de rolagem de dados é bem simples: usa-se 1d20 para as ações. Se o seu atributo para atacar com a espada for, por exemplo, 15, você tem que tirar o próprio número ou abaixo dele para ter sucesso. Se tirar de 16 a 19, você falha. E 20 é o que o sistema chama de fumble, ou seja, uma falha crítica e algo muito ruim pode acontecer. Se tirar exatamente o número do atributo você tem um acerto crítico, ou seja, dano em dobro no caso de uma arma ou sucesso absoluto em uma ação. O dano é determinado por dados de seis lados.

O sistema de recompensa é baseado em glória, uma forma de se medir em pontos o quanto o seu personagem é famoso por seus feitos heróicos. Estes pontos são semelhantes aos XPs do Dungeons & Dragons e você pode convertê-lo em melhorias para o seu personagem. A glória pode ser ganha, por exemplo, matando inimigos, recebendo elogios do Rei, dançando com habilidade na corte (sim, era uma habilidade dos cavaleiros), compondo uma bela poesia para uma dama, cavalgando com habilidade, vencendo torneios, etc.

O combate, meus amigos!

Aqui o bicho pega. Além de ter um sistema de combate em massa muito bom (às vezes com milhares de soldados dos dois lados combatendo) as lutas individuais são extremamente letais. É um desafio para o mestre e para os jogadores manterem os personagens vivos sem estragar a diversão. Se a sua tática é tentar resolver os problemas somente com força bruta provavelmente o seu personagem não sobreviverá muito tempo. O único conselho que o livro dá a respeito é: “Compre uma armadura melhor!”

Quanto à Magia, ela existe, mas é bem sutil e ligada às brumas e a ilha de Avalon. Um suplemento que permite jogar com Druidas foi lançado, mas nada de bolas de fogo ou mísseis mágicos, o que eu acho bem legal. Existe também para os personagens cristãos um suplemento com histórias envolvendo milagres e santos.

A riqueza do jogo Pendragon e a saga que ele propõe viver são fascinantes. Por ser um sistema bem “Old School” e não possuir muitas regras ele é dependente direto da criatividade dos jogadores e mestres. Passa também um clima rústico pois o cenário é medieval realista, agradando em cheio aos fãs de Bernard Cornwell.

Em minha opinião, para que o jogo possa ser explorado em sua totalidade é indispensável que se tenha um suplemento chamado The Great Pendragon Campaign sobre o qual escreverei a respeito mais à frente. Mas adianto que é um livro maravilhoso, com mais de quatrocentas páginas e já ganhou até prêmios na Europa e EUA. Ele é um resumo das melhores versões das lendas medievais da saga Arthuriana, descrevendo cada evento ano a ano de 485 d.C até 565 d.C., as construções detalhadas de acordo com o período abordado e as mudanças dos reinos e do panorama político, com versões semi históricas da saga. Simplesmente imperdível!

Enfim, meus amigos, o sistema Pendragon levará vocês à terra de Arthur e permitirá lutar ao lado do Rei e ajudá-lo a unificar a Britânia. Diz à lenda que hoje Arthur Pendragon está adormecido em Avalon e que um dia voltará para ajudar a Britânia. Talvez tenha chegado à hora!