Do iniciante ao experiente: Sistemas Alternativos– Sengoku (Revised Edition)
Primeiramente, peço desculpas àqueles que acompanham minha coluna sobre RPGs alternativos. Estive por um longo período resolvendo diversas questões pessoais e isso impediu o cumprimento da regularidade da coluna. Seguimos em frente com nossa série de artigos sobre os sistemas de RPG que, de acordo com o grande mercado, são considerados “de pouca relevância”.Hoje falaremos de um cenário que muito atiça a mente dos nossos mestres e jogadores mundo afora: O Japão feudal. É praticamente desconhecido algum modelo de mundo de fantasia medieval moderna (pós 2000) que não aborde um subcenário ao estilo do Japão feudal com seus samurais, ninjas, monstros, etc. No mundo dos animes, comics, filmes e da literatura clássica temos ainda muitos mais exemplos de como uma visão idealizada deste Japão clássico permeou nosso imaginário e como esta fantasia rendeu frutos nos mais diversos ramos do entretenimento. No mundo dos RPGs, quando falamos de sistemas exclusivos sobre o tema, ainda temos uma versão “mítica” deste cenário (no mundo fictício de Rokugan) na forma do famoso Legends of the Five Rings da Alderac Entertainment Group (ou L5R, como é conhecido popularmente). Mas além do L5R, que mais livros trataram especificamente deste mundo de guerreiros (além do magistral Gurps Japão?)? Se vocês souberem, postem abaixo, pois hoje falarei do RPG anti-LR5. O que trata de um período da história deste país (não de um mundo hipotético) de maneira realista e expõe as vísceras de uma das sociedades mais fascinantes do mundo. Sem idealizações, sem mitos, com informações contundentes e bem localizadas (inclusive num nível até mesmo superior ao de Gurps Japão… o que não é pouca coisa). Estou falando do genial Sengoku, é claro. Este belíssimo jogo escrito por Anthony J. Bryant e Mark T. Arsenault e lançado pela Gold Rush Games è, arrisco dizer, o mais bem contextualizado jogo do gênero. Vamos lá.
1.a. – Sengoku
Sengoku é uma palavra que faz referencia a um período específico da segunda metade do século 16 no Japão. O processo todo teria se iniciado em 1467 com a Guerra Onim (1467 à 1477), embora alguns historiadores façam referencia a um período nos idos de 1550. O fim do período é geralmente marcado como perto do inicio da Guerra de Sekigahara (1600), em que o Exercito Ocidental de Tokugawa Ieyasu venceu os Toyotomi Legalistas do Exercito Oriental liderados por Ishida Mitsunari, consolidando de vez o poder do clã Tokugawa. Neste período ouve uma incessante guerra civil entre diversos líderes militares rivais e clãs samurais e uma quase total quebra da ordem social (a casta dos samurais se tornaria mais e mais anacrônica diante dos novos ventos europeus que soprariam por aquelas terras).
A quantidade de informações é considerável (num nível igual ou superior ao de um suplemento de Gurps, como já dito) e muitas informações inesperadas surgem podendo até mesmo mudar algumas concepções ingênuas criadas pela mídia de entretenimento. Por exemplo, a quantidade de vezes que a classe camponesa se revoltou contra a classe militar não foi pequena (em certos períodos chegou a ser frequente), sendo que as revoltas foram debeladas apenas pela violência extrema da classe militar. E quando acontecia isso, sabe qual era a resposta do povo? Mais revoltas. Esses exemplos históricos quebram a noção pueril que o japonês feudal era completamente submisso suportando todo e qualquer abuso de seus lordes (não que a noção de dever não fosse extremamente arraigada na cultura japonesa feudal, mas ainda assim). Por vezes, os camponeses se refugiavam nas vilas dos templos para proteção. Como os samurais queriam punir esses camponeses de qualquer jeito, sabem o que acontecia? Enormes guerras entre samurais e seitas budistas guerreiras. E, devo dizer, os monges eram bons de briga (venceram diversas conflitos). Não preciso dizer que os ninjas também surgiram de um processo semelhante.
Embora o charme diferencial do jogo seja a pretensão de fidelidade histórica, também temos a opção de jogo ao estilo “chanbara” (ao modo de alguns filmes de Takeshi Kitano e Akira Kurosawa, ao qual, junto com Toshiro Mifune, o livro é dedicado) ou anime (ao modo de um Samurai X), embora o foco seja nos dois primeiros gêneros.
1.b. – O Cenário/Escrita:
Estou comentando a versão revisada do livro, ou seja, com um acabamento técnico melhor, mais texto, regras melhoradas, referencias bibliográficas, por aí vai…
A escrita é feita de uma maneira acadêmica. Pode irritar alguns leitores, compreensivelmente, mas o Japão feudal e seu controvertido período Sengoku são assuntos complexos, amplos e cheios de conceitos abstratos que permeavam a sociedade da época. Temo que uma abordagem mais leve ou informal pudesse desviar o foco e tornar a substancia menos densa. E a densidade é graça desse livro, acredite.
O cenário, como já conversado, é na verdade uma enorme gama de informações históricas que é resumida para poder ser pragmaticamente utilizada para criar uma aventura mais ou menos realista de acordo com o gosto do mestre e dos jogadores. A parte da organização da sociedade e seus costumes, e como vive um japonês nessa época toma em torno de 40% do texto. O resto é informação histórica e regras (combate, técnicas específicas de espada, equipamento, magia, etc.).
Existem diversos personagens prontos para termos uma ideia de conceito. É bem instrutivo: temos yogimbos, yakusas, monges, ninjas, monges-ninjas, jesuítas, marinheiros portugueses, holandeses, samurais duelistas, etc. Mas o que faz um personagem em Sengoku? Sem um mestre para criar um contexto de ação, nada. Este livro depende totalmente da criatividade do mestre (quase como um RPG genérico) e da boa vontade do jogador, visto que o plot é, na verdade, uma sequencia histórica de eventos. O quanto você gosta de Japão feudal?
2- O sistema
O sistema é o chamado Sistema Fuzion. Neste sistema usa-se 3d6 e após rolar os dados obtemos um valor que somamos ao valor da perícia e somamos ao atributo relevante. Com este valor, deve-se vencer o valor da dificuldade da tarefa. Em testes de combate, somamos a rolagem ao Valor de Ataque (VA, um atributo derivado) contra o Valor de Defesa do alvo (VD, outro atributo derivado) mais uma rolagem para se avaliar se houve sucesso no ataque. É um sistema rápido é fácil (se não contarmos as manobras, certas técnicas de espada, etc.).
3 – Dicas do Guido
Shinobi, Shadows of Nihon (que é um livro sobre, vejam só, ninjas! com toneladas de informações históricas e escrito em conjunto com uma descendente de um autentico clã ninja…supostamente). O outro é um suplemento do suplemento: Shinobi Ryu (que fala das diversas escolas de técnicas ninjas e provêm vários npcs interessantes; é coisa mais para mestre mesmo, embora hajam algumas supostas figuras históricas com ficha no meio).
Bem, por enquanto é isso. Espero que todos tenham curtido,
Até a próxima.
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